Site do grupo PEDAL CURTICEIRA - www.pedalcurticeira.com.br

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

QUE TAL UM "PEDAL DA CURTICEIRA" ?!?

É com um “baita” prazer que apresento aqui uma nova forma de curtir as próximas noites de terça feira em Pelotas/RS. Desde que voltei de Santa Catarina cultivo a idéia de formar um grupo de simpatizantes da bike aqui na cidade.

Há quase um ano e meio atrás eu acabei redescobrindo o gosto por pedalar por uma iniciativa própria e logo fui estimulado por várias pessoas a adotar a bike na minha vida de forma bem mais incisiva (ver http://leandropedal.blogspot.com/2010/08/por-que-eu-pedalo.html), o que acabou se tornando o melhor vício que já tive e que me fez conhecer lugares e pessoas da melhor qualidade, além de me proporcionar fortes emoções em pedais bem radicais e algumas competições.

A partir de conversas daqui e dali logo que retornei à cidade senti um anseio escondido nas pessoas, um desejo retido pela falta de incentivo, organização e até mesmo parceria pra pegar a bike e sair pra dar um rolé.

Sabendo do quanto isso me fez bem, a mim e a tantos outros membros de um grupo que hoje se tornou bem expressivo na Grande Florianópolis e, tendo a experiência que tive ao acompanhar desde o princípio a sua fundação em São José/SC, o PEDAL CONTINENTE (grupo cuja camisa eu visto na maior parte das minhas pedaladas), tenho o prazer de conseguir juntar alguns amigos aqui de Pelotas e dar início ao “PEDAL da CURTICEIRA”, galera que assim como eu, busca formas alternativas de integração, lazer e saúde de um jeito fácil, barato e divertido.

O primeiro PEDAL da CURTICEIRA foi realizado no dia 05/10/2010 e contou com cinco iluminados seres que conversaram sobre a proposta do grupo que se encontraram as 20h na Pça. Cel. Pedro Osório (defronte o Teatro 7 de Abril) e pedalaram por um percurso de quase 15km dentro do perímetro urbano da cidade em um ritmo leve para que todos pudessem acompanhar sem muito esforço.

Primeira curticeira.


Este pedal tem vários objetivos agregados, aqui vão alguns deles:



- Estimular o uso da bicicleta como meio sustentável de transporte;

- Possibilitar pedaladas noturnas de forma mais segura, visto que os pedais serão realizados em grupo;
- Estimular as pessoas à práticas esportivas, principalmente àquelas relacionadas à bicicleta;

- Promover a educação no trânsito, tanto por parte dos ciclistas, como conquistar o respeito dos motoristas por aqueles que utilizam a bicicleta nas ruas;

- Reivindicar melhorias das condições de uso da bicicleta na cidade;

- Promover a integração das pessoas, a camaradagem, o bom humor e a amizade;
- Promover pedais extras entre os membros do grupo, em dias alternativos, conforme a disposição dos mesmos;

- Possibilitar momentos de lazer e fuga da rotina urbana, estimulando o abandono do “ócio”;

- Estimular a aproximação das pessoas e a interação direta, deixando por alguns momentos os meios “virtuais” de interação;

- etc, etc, etc, etc.......



O PEDAL da CURTICEIRA será realizado:

- Quando: Todas as terças-feiras;

- Horário: as 20h;

- Local: Pça. Cel. Pedro Osório (defronte o Teatro 7 de Abril) – partida e chegada;

- Ritmo: “Bem tranqüilo”. De acordo com o condicionamento dos “pedalantes”.

- Equipamentos necessários: uma bicicleta que esteja em condições de rodar, um ciclista munido de bom humor, espírito de convivência em grupo e um coração tranquilo; legal que a bike esteja equipada com sinalizadores e uma câmara reserva para o caso de pneu furado.

- Como faço para ser um membro do PEDAL da CURTICEIRA?

Basta enviar um email "em branco" para pedaldacurticeira-subscribe@yahoogrupos.com.br e depois confirmar a resposta automática deste; após, para interagir com o grupo é só enviar mensagens para pedaldacurticeira@yahoogrupos.com.br que todos os membros receberão sua mensagem, inclusive você mesmo.


- Percursos: Os percursos serão postados no email do grupo e divulgados pelos próprios membros deste. Os percursos serão mapeados por GPS e postados no email junto com o relato dos mesmos.



Convide seus amigos, namoradas, namorados, vizinhos, cachorros, gatos, patrões, empregados e quem mais possa ter interesse. Aqui não existe preconceito de credo, cor, classe social ou seja lá o que for. Se faça respeitar e será respeitado como ser efetivamente humano!!!



Um grande e forte abraço e até a próxima terça-feira, dia 12/10!!!



Leandro Karam












segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Cicloviagem Pelotas - Santana da Boa Vista - "A IDA"

É sempre com o barulho do despertador que as aventuras começam, isto quando a ansiedade não faz este trabalho antes mesmo do programado. Passadas as 6h do dia 25 de setembro (sábado) é tempo de levantar da cama, tomar o café da manhã mais reforçado do que o normal, montar a “fantasia” de ciclista, acordar a Soraya (minha bike) e dar “bom dia” ao dia. Dia este que amanhece nublado, tímido e preguiçoso, estado de espírito incongruente com o meu naquela manhã. Do alto de minha determinação só há espaço pra um pensamento: “azar é de São Pedro”, era tarde demais pra retroceder os planos.

Saio de casa, desço o início da Avenida Duque de Caxias e encontro, no local e hora combinados o meu companheiro de empreitada. Vinícius integra o grupo de ciclistas pelotenses da equipe NOBRE BICICLETAS. Havíamos nos conhecido há exata uma semana atrás, quando resolvi me agregar ao grupo que sai todos os sábados as 14h da frente da loja, no Fragata e fizemos um pedal até a Vila Cascata. Me expôs seu desejo de fazer uma cicloviagem de Pelotas a Santana da Boa Vista em breve, porém ainda não havia encontrado parceiros para esta “indiada”. Neste caso, achei uma idéia razoável e resolvi aderir à causa.

A partida.

Tudo certo nas bikes, tudo certo com os aventureiros, compramos pilhas para a máquina fotográfica e partimos em direção ao trevo de acesso à BR-392, sentido Pelotas-Canguçu.

Um importante ponto positivo foi o pouco volume de bagagem em razão de conseguirmos prévio contato com o vereador Pingo da cidade de Santana da Boa Vista que prontamente nos receberia e nos conduziria a algum leito reparador assim que chegássemos. Eram exatamente 7:15 da manhã quando partimos de Pelotas.

Logo de saída São Pedro, em uma tentativa quase “pessoal” de nos amedrontar, lançou à terraum conjunto de nuvens acinzentadas que soltavam uma garoa que por vezes adensava, por vezes dava trégua. Mal sabia ele que nossa força de vontade era maior do que aquelas nuvens e atravessamos aquele mal tempo abaixo de gritos de satisfação. Acho que o Santo percebeu a ineficácia de sua provocação e em questão de uns 20 minutos recolheu suas intempéries e seguimos nossa viagem, otimistas e destemidos.


Tons de cinza predominando.

Passando a Vila Cascata começaram as subidas e descidas, coisa linda de viver. Entre prosas e causos cruzamos o trevo de acesso a Morro Redondo e seguidamente parávamos pra tirar algumas fotos. O ânimo “ainda” estava em alta.



Passando pelo pedágio de Canguçu e quase acessando esta cidade resolvemos parar para reabastecer as caramanholas com água. Encosto a bicicleta no meio-fio e um “cusquinho” todo brincalhão se vem ao nosso encontro. Até aí eu estava até gostando do animal. Até que desajeitadamente resolveu fazer um reconhecimento na Soraya e ao se debruçar nela derrubou-a com tudo no chão. Mas foi só eu lançar a primeira onda sonora e o cusco fez o incrível “truque do desaparecimento” e não deixou sequer pistas. Bueno, subi novamente na bike e senti um pouco pesada ao pedalar. O que houve?! Eis que um prego faz um leve furinho e o pneu começava a murchar.

Bueno... tínhamos câmara reserva e remendos. No entanto, Estávamos a apenas uns 4 ou 5km do centro de Canguçu e lá haveria de ter alguma borracharia aberta naquela manhã de sábado.

Calibragem rápida no pneu e logo “sentamos o pé no pedal” até Canguçu City. Entramos na cidade para comer umas torradas e alimentar nossos “radiadores” na conhecida “Churrascaria e Lancheria do Alemão”. Depois do lanchinho encontramos uma oficina de bikes e aproveitei para aderir a um remendo profissional ao invés de usar aquele que eu tinha.


Entrada de Canguçu.





Estômagos em dia, pneus e bikes em dia, era hora de seguir viagem. Ingenuamente pensávamos que faltariam 70km até Santana da Boa Vista (SBV). Porém, não contávamos com aproximadamente 20km “surpresa” que se somaram aos 70. Cálculos através do “Google Earth” nem sempre são tão precisos.


De Canguçu em diante aumentamos um pouquinho o ritmo, pois praticamente desceríamos uns 65 ou 70km até a ponte do Rio Camaquã e de lá até SBV teríamos algo entre 20km de predominantes subidas.

Entre “causos” ciclísticos, relatos de aventuras e experiências, um besouro ou outro que entrava na boca enquanto conversávamos (não precisa ficar com nojo, pois nós os cuspíamos de volta) e o tempo foi passando, a quilometragem correndo rapidamente, por vezes parávamos pra algumas fotos e “toca a barca” novamente.



O lado penoso da história começou quando as torradas de Canguçu se desintegraram no estômago com o passar das horas e os meus cumprimentos incisivos aos pedestres, motoristas, pássaros e pedras na estrada não conseguiam mais disfarçar o cansaço enquanto o velocímetro apontava que havíamos passado de 100km rodados e não via mais nenhum sinal de algum posto de conveniência ou lancheria na beira da estrada e o sol começava a castigar.


A razão do sucesso da criação de gado aqui no RS.



Casa antiga 

Imensidão da estrada

A água já não matava mais o desejo, pois o sal que expelimos com o suor pelos poros da pele já se acumulavam por cima dos manguitos e calça. Precisava de algum isotônico e não tínhamos em mãos. Sim, foi o vacilo da ida. O sorriso deu lugar à expressão de exaustão e o bom humor deu lugar ao silêncio até avistarmos a ponte que cruza o Rio Camaquã, nosso sinal de que faltavam apenas algo entre 20km até a entrada de SBV.

Naquela condição física e psicológica entrávamos nos derradeiros trechos da nossa viagem junto com as derradeiras e arrebatadoras subidas. Da nossa parte exteriorizavam-se gritos de cansaço, ira, alegria misturados ao anseio em logo chegar.

Liguei pro nosso ainda futuro amigo “Pingo” e estimei a ele um horário para a nossa chegada.

O necessidade orgânica pela ingestão de sais minerais era tanta que caminhei até uma casa próxima à estrada e pedi algumas bergamotas ou qualquer fruta que tivessem. A senhora que me atendeu demonstrou através de sua expressão facial “certa” surpresa com a visita um pouco alienígena de um humanóide com cara de morto de fome, com vestimentas coloridas atípicas e um capacete na cabeça. Apesar desta primeira impressão esta senhora foi extremamente solícita e prontamente me disse que “não havia mais nenhuma fruta sequer”. “Os passarinhos comeram tuuuuuudo”. Agradeci a atenção e retornei à companhia de Soraya e do ciclista Vinícius com um sorriso amarelo e a animadora afirmação de que estávamos bem pertinho de chegar. Pensamento positivo move montanhas!

O porquê da "Boa Vista" de Santana.

Finalmente...

Logo acostumamos com a idéia, subimos os últimos aclives e alcançamos o trevo de entrada da cidade. Parada para as fotos e logo fizemos contato com o anfitrião que foi ao nosso encontro enquanto no posto de gasolina eu tomava o melhor suco de goiaba do mundo em toda minha preciosa vida.

Da origem de nossa viagem até onde estávamos, tínhamos percorrido um total de 144km em 6 horas e 15 minutos pedalando; 1 hora e 35minutos de paradas somaram a nossa empreitada o tempo de 7h e 50 minutos totais. Nossa média de velocidade foi de 22,6km/h e a velocidade máxima atingida foi de 70,7km/h.

As "nêga" e o trevo de acesso.

A esta altura (depois do suco) já me sentia bem melhor e pronto pra viver os próximos acontecimentos que serão relatados no próximo “post” sobre esta cicloviagem de Pelotas à Santana da Boa Vista. Aguarde!

Um baita abraço!!!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O DEDO DO CERRO

São Pedro as vezes provoca a paciência humana, talvez para verificar até que ponto somos capazes de controlar o anseio por executar aquilo que nossos corações instintivamente nos impulsiona. Sedento por um estradão há mais de uma semana em razão de uma guinada no sentido da vida que acabou por me trazer de volta a terra que me adotou desde minha adolescência, eis que após muitos dias chuvosos amanhece um ensolarado domingo. No cardápio, novas opções de deleite, no entanto, não disponho mais de morros tão altos e altivos aqui nesta transição entre a Serra Geral e a Planície Costeira como os que dispunha em terras catarinenses. Aqui a terra fértil da serra se encontra com a areia salobra da planície costeira, resultado de um ancestral recuo do mar, restando entre Pelotas e o litoral um grande resquício deste dinamismo: a Lagoa dos Patos.


Por alguma razão busquei neste primeiro pedal encontrar um ponto alto, um conhecido Cerro situado a cerca de 25km do centro de Pelotas e que desde 1982 pertence ao emancipado município de Capão do Leão, berço da segunda maior serra granítica do mundo. Uma seqüência de 7 elevações com base de granito compõem o conhecido Cerro das Almas, onde foi instalada a chamada pedreira do Silveira, ponto de extração mineral que é a segunda principal atividade econômica da cidade, perdendo apenas para a agricultura. Lá está uma conhecida pedra que os populares se referem como o “dedo da moça”.

Trevo de acesso ao Capão do Leão: ao fundo a pedreira municipal.


Em relevo predominantemente plano me toquei solitariamente ao Cerro das Almas para avistar a cidade de forma panorâmica, parte de um ritual pessoal de benção a este chão.

Vale ressaltar a receptividade das pessoas que faziam questão de cumprimentar este que vos escreve e vestia traje pouco convencional em terra onde o ciclismo ainda é pouco disseminado. Também reparei o número considerável de cavaleiros que, solitários ou em pequenos grupos, tomavam as ruas e estradas. Sua expressividade deve-se a proximidade da semana farroupilha, embora em outras épocas e, em número mais reduzido, seja comum este tipo de meio de condução.



Enfim o estradão de chão batido chega e posso desfrutar de uma mistura de saudosismo por pedalar novamente nos meus pagos de origem e pela saudade dos companheiros de pedal que naquele exato momento deviam estar percorrendo o Desafio Jovem, conhecido percurso dos pedalantes de MTB da Grande Florianópolis. Meus pensamentos eram uma mescla das memórias de aventuras lá vividas com os prenuncios do que ainda há de acontecer pela Zona Sul deste estado que me criou e novamente me recebe de braços abertos. Aspirava sobre os amigos que por ventura me acompanharão por estas estradas e tantas indiadas que nos aguardam, aspirava por conhecer tantos lugares que ainda não fui, degustar tantos sabores ainda não provados por estas colônias povoadas por descendentes de imigrantes alemães no século XVIII que predominam nesta porção da Serra dos Tapes.

O início do Cerro das Almas: com atenção se observa o "dedo da moça".


De subidas mais consideráveis, somente encontrei nos arredores da Pedreira do Silveira, mais especificamente na base do morro em que percorri um caminho ao seu redor até adentrar uma pequena “single track” que me conduziu a um espetáculo panorâmico que permite avistar com clareza a cidade de Capão do Leão e de Pelotas. Então, mais um filme me passa pela película da memória.

Trilha lateral de acesso ao morro.

Entrada da pedreira.


A Soraya e o "dedo".




"Single Track"


Planície Costeira.


Momentos de contemplação e novamente me encontro com o caminho de volta pra casa. Lindo passeio de bike mesmo com o castigo que o vento impunha. Sei que muitos lugares e surpresas me aguardam nesta nova fase de cicloaventuras e tão breve possa, estarei relatando-as com um quê de poesia e paixão.





Aguardem!!!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

POR QUE EU PEDALO?




Há cerca de um ano eu estava vivendo um contexto no qual sempre fui bastante crítico, a rotina. Sou bacharel e licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) por sempre ter uma aproximação física e espiritual muito forte com o meio natural, campesino. E desde criança minha sensibilidade ao contemplar estas belezas bucólicas foi muito aguçada. Na chácara de meu avó em Bagé-RS, na estância de tios do meu pai, próximo à fronteira com o Uruguay tive experiências que raras as crianças que hoje em dia podem desfrutar.


Eram madrugadas em meio ao nada, pescando defronte ao açude e ao redor apenas de coxilhas recobertas de pasto e algumas cabeças de gado, ali aprendi a ouvir o silêncio e apreciar sua poesia. Aprendi também a fazer bodoque (estilingue), ouvi histórias de assombração de meu primo em frente à lareira, busquei água no poço, acordei cedinho e tomei “nescau” com leite ordenhado por mim mesmo, fiz casa na árvore, andei a cavalo com meu irmão pelas estadas ao redor da chácara, aprendi como se cuida de uma horta, como se planta uma árvore e até mesmo identificava muitos pássaros que por lá revoaram com auxílio de um catálogo de aves do meu tio. Tudo isso me deixava maravilhado com a beleza deste mundo e me causava uma ânsia em cada vez conhecer mais e mais desse planeta tão perfeito e harmonioso.


Durante minha adolescência ganhei minha primeira bicicleta, lembro até hoje do quão feliz eu fiquei com minha freestyle com aros de nylon. Com ela pude ganhar nas ruas o sentimento de liberdade e de fácil acesso a qualquer lugar. Nela eu ia pra escola, visitava meus amigos e quase todas as tardes encontrava com a galera na pistinha de bicicross da cidade de Venâncio Aires-RS, quando comecei a me aventurar em algumas competições. E não é que sempre incomodava aqueles “paitrocinados” com bikes de alumínio com quadro búfalo (aquele quadradinho). Tive a alegria de conquistar várias medalhas de 2º, 3º ou 4º colocado em corridas tanto em Venâncio Aires como nos arredores, como em Santa Cruz do Sul, Estrela, Lajeado e também onde ganhei meu primeiro troféu de vencedor, em Roca Sales, corrida em que todos competidores se engalfinharam na primeira curva, exceto eu que contornei por fora, desviando de todos e administrando minha liderança até o final. Primeira emoção de estar no topo do podium, memorável.




Acho que fiquei em 3º lugar, se não me falha a memória.


Muito tempo passou quando morando em Pelotas ganhei minha primeira bicicleta com marchas, era uma ALTUS C-10 de 21 velocidades. Inspirado em algumas viagens que meu irmão havia feito (Pelotas-Bagé; POA-Serra do Rio do Rastro, etc) me aventurei com ele por algumas estradas da serra pelotense. Nestas empreitadas soube o que era pedalar algo em torno de 50km em uma tarde inteira, o que para um adolescente representava um grande desafio, considerando que pilotava uma bike quase que inteiramente de ferro e sem as tecnologias atuais que tanto dão conforto e rendimento ao ciclista.



Por razão dos caminhos da vida, larguei a bike durante a universidade e a usava para pedais modestos de uns 10 ou 20km pelo perímetro urbano da cidade.



Ao fazer concurso público no município de Biguaçu, passar e ser convocado, acabei jogando o que tinha em Pelotas para o alto e mergulhei no desconhecido. Jamais havia pisado por estas bandas, jamais havia lecionado em escola pública e também para adolescentes, jamais tivera a experiência de morar sozinho, pagar minhas contas, etc.

Após um ano totalmente envolvido pela rotina de aulas eu já havia me adaptado ao novo labor e passei a exibir meus dotes musicais em alguns bares da região com minha voz e meu violão e pude conhecer muita gente neste meio. Porém ainda tinha algo que não estava me aquietando. Sentia muita falta daqueles cenários contemplativos, da natureza, da contemplação e daquele sentimento de liberdade que experimentei em outros tempos.

Mesmo morando em uma cidade mundialmente reconhecida por suas belezas naturais ainda as sentia muito distantes. Já incomodado com a rotina, foi quando repentinamente tive um insight, um estalo na cuca. Sei que estou ainda um tanto distante do matrimônio, visto que minha corrida pela estabilidade está no seu ápice e os frutos que hoje cultivo amadurecerão somente em futuras primaveras... O jeito então é comprar uma bicicleta! Foi aí que percorri todos estabelecimentos comerciais da Grande Florianópolis e fui parar numa tal de Ciclovil Bikes no bairro Campinas em São José e falei com um cara chamado João, que logicamente também curte umas pedaladas e seguidamente lhe faltava parcerias para pedalar.

Há pouco mais de um ano fiz minha primeira pedalada após quase dois anos sem subir numa bicicleta. Lembro que peguei a magrela na loja e me toquei deslumbradamente do continente (bairro Kobrasol) ao sentido sul da ilha, indo parar somente na beira da praia da Armação, estarrecido pela minha conquista. Cada pedalada era uma dor que me libertava e me fazia sentir a mesma criança que fui quando ganhei as ruas com a minha freestyle e suas rodas de nylon. No meu retorno, cada dor muscular se transformava em gritos de desabafo, de liberdade, de vitória. Não era por menos. Parado há tanto tempoe repentinamente pedalar 70km não é algo lá muito comum.


Desde então comecei a explorar cada estrada, cada trilha que esta grande Florianópolis me apresentava. Vezes sozinho (na maioria delas), vezes acompanhado passei a desbravar a região e buscar cada vez desafios maiores e morros mais desafiadores. Aos poucos fui sentindo minha evolução nos pedais, aprimorando as técnicas de mudança de marcha, pedalando com o pessoal mais experiente aprendi e continuo a aprender muito.




O ponto culminante foi quando percebi que tinha potencial inclusive competitivo. Conseguindo acompanhar grupos de alto nível aqui da região, o que me fez sentir cada vez maior confiança nesta prática. Assim, mais um universo se abriu no meu caminho. Universo este ainda muito incipiente e que me reserva infinitas surpresas, alegrias e ensinamentos.







Não posso esquecer que nesse entremeio todo pude conhecer pessoas maravilhosas, saudáveis e que assim como eu, anseiam em viver a vida plenamente e compartilham comigo muitas dessas alegrias de conhecer lugares novos, de ajudar e incentivar quando alguém está prestes a desistir, propor novos desafios e viver cada momento de forma leve a alegre.


 

 

Se alguém me perguntar por que eu ando de bicicleta, nem saberia por onde começar a responder. Acho que a melhor resposta seria... Pedalo porque busco sempre o desconhecido, porque busco sempre um novo desafio, porque quero ter um corpo e mente saudáveis, porque quero fazer cada vez novos e melhores amigos, porque quero contribuir para um ar puro para meus pulmões, porque quero ir onde minhas pernas possam me levar, porque pedalar me faz sentir criança, me rejuvenece, porque me emociona, porque tenho a contemplação da natureza como fonte de energia vital e de inspiração pra vida,  porque a vida é como andar de bicicleta... para se manter em equilíbrio é necessário estar em movimento. É por isso que eu pedalo!!!



 



Um forte abraço!!!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pedalar é planejar surpresas e acabar sendo surpreendido

Dia 8 de agosto de 2010 ficará eternamente na memória como o dia em que aprendemos que erros podem dar certo, bem como o dia em que se confirmou o velho ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas”.


Quando as 7:30 de uma manhã ensolarada eu aguardava ansioso pela chegada de Rodrigo, botávamos as bikes no transbike e pegávamos Alexandre em casa, tinha o pensamento de que estávamos saindo um pouco mais tarde do que deveríamos, considerando que tínhamos o intuito de viajar de carro e pedalar de Aiuré (comunidade vizinha de Grão Pará) até a Serra do Corvo Branco, em Urubici. Lá, de acordo com nossas condições físicas e o horário, decidiríamos se tocaria “acaveiradamente” até o magnífico Morro da Cruz ou daríamos volta. Bom, a seqüência de surpresas começou por aqui.

Não sei exatamente a troco de quê adentramos a BR-282 no sentido de Águas Mornas e Rancho Queimado. Ao passar pela Polícia Rodoviária nos informamos com o policial, digo, com os mapas que o policial nos concedeu, pois o mesmo sequer sabia por onde chegar até Braço do Norte que era a nossa referência para acessar Grão Pará. Percebemos então que “geograficamente” o caminho seria até mais curto do que se tivéssemos descido direto pela BR-101. O desconforto seria apenas um trecho de aproximadamente 50km de estrada de chão entre São Bonifácio e Rio Fortuna pela SC-431. De lá até Braço do Norte e Grão Pará chegaríamos em um piscar de olhos.

Porém, logo nos primeiros quilômetros daquela estrada de chão, percebemos que estes 50km seriam bem mais longos do que havíamos imaginado. Considerando também que já eram passadas 11h e o relógio não estava mais a nosso favor.

Enfim... O jeito é improvisar. Embora a estrada fosse ruim para passar de carro, a cada curva que passavam os três malucos do Continente divagávamos sobre a agradabilidade de percorrer aquele trecho pedalando. Em cada curva, em cada descida, cachoeiras e pontes sobre arroios. Então ecoou no ar: “Galera, o que vocês acham de, ao invés de voar ao “Corvo”, fazermos este percurso pedalando até o Rio Fortuna curtindo cada metro deste estradão?”


Aqui não tem tempo ruim e com estas parcerias a gente “tira leite de pedra”. Quando começou a pintar aquele clima de “iiih... melou”, foi o momento em que demos volta, estacionamos o carro no posto de gasolina do centro de São Bonifácio e começamos a “encilhar” os cavalos, digo, as bicicletas. Os cavalos éramos nós mesmos, tira a camisa, põe a de pedal, tira a calça de abrigo e põe a estofada de pedal, enche as caramanholas, mistura com isotônico e outra com VO2, luvas, capacete, câmaras reserva, bomba, espátulas, algumas ferramentas, regulagem de bancos, ajeita os faróis, pega um “troquinho” pra alguma eventualidade, enfim. Por alguns minutos fomos o centro das atenções de São Bonifácio naquele domingo de dia dos pais e partimos sorridentes em direção ao desconhecido. Nunca havíamos percorrido aquela estrada e estávamos prontos para o que der e vier. Tudo era lucro.




Nas primeiras investidas naquele chão inicialmente pesado pegamos de cara algumas subidas fortes. A conseqüência foi sofrer um princípio de pressão baixa. Claro né... Não fizemos aquecimento nenhum, estávamos a uma semana sem pedalar e sem qualquer outro exercício. Eu ainda com o rosto “costurado” em razão da queda na corrida em Termas do Gravatal há uma semana atrás e nos “atracamos” com toda a sede ao pote. Não há organismo que agüente. Paramos por alguns minutos, respiramos fundo, tiramos algumas fotos, algumas palhaçadas e risos e daí: “siiiiiiimbora cambada”.


A partir de então foi só alegria e gritos de contentamento perante aquela serra maravilhosa. Cruzamos rios, morros, pessoas sorridentes ao nos ver, aquele sol batendo em nosso corpo como uma benção divina. Filmamos algumas descidas do percurso e tudo estava perfeito.



Depois de rodar 20km de divinas estradas encontramos uma bifurcação que nos semeou um dilema. As possibilidades eram: para Vargem do Cedro dobre a esquerda; outra dizia “12km a esquerda, Fluss Hauss Café Colonial”. Mas e se formos pra direita, onde chegaremos? Pouco importa, não é? “Bora” ver qual é a desse café colonial. E como bons glutões, partimos ávidos por mais 12km num ritmo de dar inveja até a Lance Armstrong.


Caminhos simplesmente maravilhosos de percorrer, descidinhas deliciosas e subidas agre-doce, casinhas em estilo colonial com pomares, hortas e tudo que se tem direito.

Em meio àquela paisagem, eis que surge um oásis no meio do nada. Avistamos um estabelecimento de arquitetura alemã e uma multidão de pessoas defronte ao que dizia na placa: “FLUSS HAUS CAFÉ COLONIAL”.

Fluss Haus (Casa do Rio)



Maaaaaluco!!! Olha isso!!! Que pitoresco!!! Vamos dar uma olhada, no mínimo. Imaginem alguém vestido de astronauta no centro de Florianópolis, será que chamaria a atenção?!? Agora imaginem três ciclistas malucos e devidamente fardados adentrando a um recinto tipicamente familiar onde se encontravam pessoas dos mais variados lugares. Parecia que conhecíamos todo mundo. Era um “boa tarde” pra cá, um “como vai?” pra lá, um “opa” acolá, uma piscadelinha pra umas menininhas pra lá de simpáticas que estavam acompanhadas dos entes. Mas que lugar!!!




Neste pedaço do inesperado, encontramos um treinador de basquete que mora nos EUA, os estimados ex-sogros de um dos companheiros ciclistas (inimaginável!!!) e até mesmo uma família inteira de ciclistas. Isso mesmo, encontramos bikers muito mais rodados do que nós, porém, à paisana. Era a família do conhecido “Zé do Pedal” de Tubarão, um jovem senhor de setenta anos e a sua linda família. Quando uso este adjetivo, me refiro a beleza externa e interna. Gente que sabe viver com alegria e que descobriu a bike há seis ou sete anos e nunca mais pensou em parar. Fizeram por três anos consecutivos a volta na Serra de Santa Catarina, pedalando 300km por estradas de chão, morros e descidas de tirar o fôlego. Até mesmo as mulheres da família pedalam mais do que muito marmanjo gostaria de pedalar. Ficamos de marcar algumas aventuras em duas rodas em um breve futuro. Horas e horas de muita conversa e troca de contatos e informações pareceram ter passado em poucos minutos.


Eu e "Zé do Pedal": Quando crescer vou ser como ele. Grande exemplo de vida.



Atendimento a caráter.

Não preciso nem mencionar a esplendorosa culinária alemã que demorou muito tempo pra poder saborear um pouquinho das tantas opções que me faziam sentir como uma criança em um parque de diversões.

Era pastelão de palmito, de frango, massas, salames, queijos, sucos naturais, tortas de chocolate com damasco, de morango, de banana, de limão, era muuuuuuito rango!!!


Olha a alegria da criança.

Como verdadeiros “sem noção” comemos demais e o tempo passou voando. Até que, ao ir ao banheiro percebi, olhando pela janela, que o tempo estava um pouco fechado. Algumas nuvens e um pouco de vento frio começou a soprar e ainda tínhamos que “subir” todos os 32km que descemos até aquele maravilhoso estabelecimento.


Viver momentos como esse não tem preço.

Foi aí que resolvemos não “perder” mais tempo e nos tocar bem de vagarzinho no caminho de volta. Nos despedimos do pessoal, pegamos nossas bikes na casa do dono do café que nos cedeu sua garagem (éramos praticamente da família) e tocamos de volta.

Ao contrário do que pensamos, o retorno não foi tão árduo assim. O que foi pior era o filho que cada um carregava na barriga. Então fomos muito na “manha”, contemplando cada cenário por onde passávamos.

Chegamos ao “posto” de partida quando a noite já havia se anunciado, adrenalizados por tudo aquilo que havia acontecido.

O tempo que levamos pedalando foi de 1:35 para ir, 1:55 para voltar e algo em torno de 3:45 para comer e conversar. Valeu cada segundo!!!

Em nosso retorno a São José fomos lembrando cada uma das emoções e das lembranças, além de projetar com muito mais determinação as nossas futuras empreitadas pela serra catarinense.

Definitivamente o MTB nos reserva sempre algumas surpresas inesquecíveis, basta estarmos de coração aberto e de consciência tranqüila. O amor, as amizades, os lugares novos, as descobertas... Tudo isso faz parte do arcabouço que proporciona o MTB. Jamais teria conhecido pessoas tão extraordinárias como as que conheci em tão pouco tempo se não fosse por esse objeto tão simples e tão mágico de duas rodas pelo qual jamais deixarei de desfrutar.



Obrigado Rodrigo, obrigado Alexandre, obrigado a meu pai (Antonio) e a Deus por um dia tão especial como este.



Um grande abraço e até o próximo relato!!!



Leandro Karam