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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Cicloviagem Pelotas - Santana da Boa Vista - "A IDA"

É sempre com o barulho do despertador que as aventuras começam, isto quando a ansiedade não faz este trabalho antes mesmo do programado. Passadas as 6h do dia 25 de setembro (sábado) é tempo de levantar da cama, tomar o café da manhã mais reforçado do que o normal, montar a “fantasia” de ciclista, acordar a Soraya (minha bike) e dar “bom dia” ao dia. Dia este que amanhece nublado, tímido e preguiçoso, estado de espírito incongruente com o meu naquela manhã. Do alto de minha determinação só há espaço pra um pensamento: “azar é de São Pedro”, era tarde demais pra retroceder os planos.

Saio de casa, desço o início da Avenida Duque de Caxias e encontro, no local e hora combinados o meu companheiro de empreitada. Vinícius integra o grupo de ciclistas pelotenses da equipe NOBRE BICICLETAS. Havíamos nos conhecido há exata uma semana atrás, quando resolvi me agregar ao grupo que sai todos os sábados as 14h da frente da loja, no Fragata e fizemos um pedal até a Vila Cascata. Me expôs seu desejo de fazer uma cicloviagem de Pelotas a Santana da Boa Vista em breve, porém ainda não havia encontrado parceiros para esta “indiada”. Neste caso, achei uma idéia razoável e resolvi aderir à causa.

A partida.

Tudo certo nas bikes, tudo certo com os aventureiros, compramos pilhas para a máquina fotográfica e partimos em direção ao trevo de acesso à BR-392, sentido Pelotas-Canguçu.

Um importante ponto positivo foi o pouco volume de bagagem em razão de conseguirmos prévio contato com o vereador Pingo da cidade de Santana da Boa Vista que prontamente nos receberia e nos conduziria a algum leito reparador assim que chegássemos. Eram exatamente 7:15 da manhã quando partimos de Pelotas.

Logo de saída São Pedro, em uma tentativa quase “pessoal” de nos amedrontar, lançou à terraum conjunto de nuvens acinzentadas que soltavam uma garoa que por vezes adensava, por vezes dava trégua. Mal sabia ele que nossa força de vontade era maior do que aquelas nuvens e atravessamos aquele mal tempo abaixo de gritos de satisfação. Acho que o Santo percebeu a ineficácia de sua provocação e em questão de uns 20 minutos recolheu suas intempéries e seguimos nossa viagem, otimistas e destemidos.


Tons de cinza predominando.

Passando a Vila Cascata começaram as subidas e descidas, coisa linda de viver. Entre prosas e causos cruzamos o trevo de acesso a Morro Redondo e seguidamente parávamos pra tirar algumas fotos. O ânimo “ainda” estava em alta.



Passando pelo pedágio de Canguçu e quase acessando esta cidade resolvemos parar para reabastecer as caramanholas com água. Encosto a bicicleta no meio-fio e um “cusquinho” todo brincalhão se vem ao nosso encontro. Até aí eu estava até gostando do animal. Até que desajeitadamente resolveu fazer um reconhecimento na Soraya e ao se debruçar nela derrubou-a com tudo no chão. Mas foi só eu lançar a primeira onda sonora e o cusco fez o incrível “truque do desaparecimento” e não deixou sequer pistas. Bueno, subi novamente na bike e senti um pouco pesada ao pedalar. O que houve?! Eis que um prego faz um leve furinho e o pneu começava a murchar.

Bueno... tínhamos câmara reserva e remendos. No entanto, Estávamos a apenas uns 4 ou 5km do centro de Canguçu e lá haveria de ter alguma borracharia aberta naquela manhã de sábado.

Calibragem rápida no pneu e logo “sentamos o pé no pedal” até Canguçu City. Entramos na cidade para comer umas torradas e alimentar nossos “radiadores” na conhecida “Churrascaria e Lancheria do Alemão”. Depois do lanchinho encontramos uma oficina de bikes e aproveitei para aderir a um remendo profissional ao invés de usar aquele que eu tinha.


Entrada de Canguçu.


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Estômagos em dia, pneus e bikes em dia, era hora de seguir viagem. Ingenuamente pensávamos que faltariam 70km até Santana da Boa Vista (SBV). Porém, não contávamos com aproximadamente 20km “surpresa” que se somaram aos 70. Cálculos através do “Google Earth” nem sempre são tão precisos.

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De Canguçu em diante aumentamos um pouquinho o ritmo, pois praticamente desceríamos uns 65 ou 70km até a ponte do Rio Camaquã e de lá até SBV teríamos algo entre 20km de predominantes subidas.

Entre “causos” ciclísticos, relatos de aventuras e experiências, um besouro ou outro que entrava na boca enquanto conversávamos (não precisa ficar com nojo, pois nós os cuspíamos de volta) e o tempo foi passando, a quilometragem correndo rapidamente, por vezes parávamos pra algumas fotos e “toca a barca” novamente.


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O lado penoso da história começou quando as torradas de Canguçu se desintegraram no estômago com o passar das horas e os meus cumprimentos incisivos aos pedestres, motoristas, pássaros e pedras na estrada não conseguiam mais disfarçar o cansaço enquanto o velocímetro apontava que havíamos passado de 100km rodados e não via mais nenhum sinal de algum posto de conveniência ou lancheria na beira da estrada e o sol começava a castigar.


A razão do sucesso da criação de gado aqui no RS.



Casa antiga 

Imensidão da estrada

A água já não matava mais o desejo, pois o sal que expelimos com o suor pelos poros da pele já se acumulavam por cima dos manguitos e calça. Precisava de algum isotônico e não tínhamos em mãos. Sim, foi o vacilo da ida. O sorriso deu lugar à expressão de exaustão e o bom humor deu lugar ao silêncio até avistarmos a ponte que cruza o Rio Camaquã, nosso sinal de que faltavam apenas algo entre 20km até a entrada de SBV.

Naquela condição física e psicológica entrávamos nos derradeiros trechos da nossa viagem junto com as derradeiras e arrebatadoras subidas. Da nossa parte exteriorizavam-se gritos de cansaço, ira, alegria misturados ao anseio em logo chegar.

Liguei pro nosso ainda futuro amigo “Pingo” e estimei a ele um horário para a nossa chegada.

O necessidade orgânica pela ingestão de sais minerais era tanta que caminhei até uma casa próxima à estrada e pedi algumas bergamotas ou qualquer fruta que tivessem. A senhora que me atendeu demonstrou através de sua expressão facial “certa” surpresa com a visita um pouco alienígena de um humanóide com cara de morto de fome, com vestimentas coloridas atípicas e um capacete na cabeça. Apesar desta primeira impressão esta senhora foi extremamente solícita e prontamente me disse que “não havia mais nenhuma fruta sequer”. “Os passarinhos comeram tuuuuuudo”. Agradeci a atenção e retornei à companhia de Soraya e do ciclista Vinícius com um sorriso amarelo e a animadora afirmação de que estávamos bem pertinho de chegar. Pensamento positivo move montanhas!

O porquê da "Boa Vista" de Santana.

Finalmente...

Logo acostumamos com a idéia, subimos os últimos aclives e alcançamos o trevo de entrada da cidade. Parada para as fotos e logo fizemos contato com o anfitrião que foi ao nosso encontro enquanto no posto de gasolina eu tomava o melhor suco de goiaba do mundo em toda minha preciosa vida.

Da origem de nossa viagem até onde estávamos, tínhamos percorrido um total de 144km em 6 horas e 15 minutos pedalando; 1 hora e 35minutos de paradas somaram a nossa empreitada o tempo de 7h e 50 minutos totais. Nossa média de velocidade foi de 22,6km/h e a velocidade máxima atingida foi de 70,7km/h.

As "nêga" e o trevo de acesso.

A esta altura (depois do suco) já me sentia bem melhor e pronto pra viver os próximos acontecimentos que serão relatados no próximo “post” sobre esta cicloviagem de Pelotas à Santana da Boa Vista. Aguarde!

Um baita abraço!!!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O DEDO DO CERRO

São Pedro as vezes provoca a paciência humana, talvez para verificar até que ponto somos capazes de controlar o anseio por executar aquilo que nossos corações instintivamente nos impulsiona. Sedento por um estradão há mais de uma semana em razão de uma guinada no sentido da vida que acabou por me trazer de volta a terra que me adotou desde minha adolescência, eis que após muitos dias chuvosos amanhece um ensolarado domingo. No cardápio, novas opções de deleite, no entanto, não disponho mais de morros tão altos e altivos aqui nesta transição entre a Serra Geral e a Planície Costeira como os que dispunha em terras catarinenses. Aqui a terra fértil da serra se encontra com a areia salobra da planície costeira, resultado de um ancestral recuo do mar, restando entre Pelotas e o litoral um grande resquício deste dinamismo: a Lagoa dos Patos.


Por alguma razão busquei neste primeiro pedal encontrar um ponto alto, um conhecido Cerro situado a cerca de 25km do centro de Pelotas e que desde 1982 pertence ao emancipado município de Capão do Leão, berço da segunda maior serra granítica do mundo. Uma seqüência de 7 elevações com base de granito compõem o conhecido Cerro das Almas, onde foi instalada a chamada pedreira do Silveira, ponto de extração mineral que é a segunda principal atividade econômica da cidade, perdendo apenas para a agricultura. Lá está uma conhecida pedra que os populares se referem como o “dedo da moça”.

Trevo de acesso ao Capão do Leão: ao fundo a pedreira municipal.


Em relevo predominantemente plano me toquei solitariamente ao Cerro das Almas para avistar a cidade de forma panorâmica, parte de um ritual pessoal de benção a este chão.

Vale ressaltar a receptividade das pessoas que faziam questão de cumprimentar este que vos escreve e vestia traje pouco convencional em terra onde o ciclismo ainda é pouco disseminado. Também reparei o número considerável de cavaleiros que, solitários ou em pequenos grupos, tomavam as ruas e estradas. Sua expressividade deve-se a proximidade da semana farroupilha, embora em outras épocas e, em número mais reduzido, seja comum este tipo de meio de condução.



Enfim o estradão de chão batido chega e posso desfrutar de uma mistura de saudosismo por pedalar novamente nos meus pagos de origem e pela saudade dos companheiros de pedal que naquele exato momento deviam estar percorrendo o Desafio Jovem, conhecido percurso dos pedalantes de MTB da Grande Florianópolis. Meus pensamentos eram uma mescla das memórias de aventuras lá vividas com os prenuncios do que ainda há de acontecer pela Zona Sul deste estado que me criou e novamente me recebe de braços abertos. Aspirava sobre os amigos que por ventura me acompanharão por estas estradas e tantas indiadas que nos aguardam, aspirava por conhecer tantos lugares que ainda não fui, degustar tantos sabores ainda não provados por estas colônias povoadas por descendentes de imigrantes alemães no século XVIII que predominam nesta porção da Serra dos Tapes.

O início do Cerro das Almas: com atenção se observa o "dedo da moça".


De subidas mais consideráveis, somente encontrei nos arredores da Pedreira do Silveira, mais especificamente na base do morro em que percorri um caminho ao seu redor até adentrar uma pequena “single track” que me conduziu a um espetáculo panorâmico que permite avistar com clareza a cidade de Capão do Leão e de Pelotas. Então, mais um filme me passa pela película da memória.

Trilha lateral de acesso ao morro.

Entrada da pedreira.


A Soraya e o "dedo".




"Single Track"


Planície Costeira.


Momentos de contemplação e novamente me encontro com o caminho de volta pra casa. Lindo passeio de bike mesmo com o castigo que o vento impunha. Sei que muitos lugares e surpresas me aguardam nesta nova fase de cicloaventuras e tão breve possa, estarei relatando-as com um quê de poesia e paixão.





Aguardem!!!